Artigo: ‘É preciso transformar a farmácia em estabelecimento de saúde’

A automedicação, ou medicação sem a orientação de um profissional de saúde é um dos grandes problemas de saúde pública no Brasil. Os medicamentos, principalmente os de venda livre, são os agentes que causam o maior número de intoxicação no Brasil e, há décadas, os...

A automedicação, ou medicação sem a orientação de um profissional de saúde é um dos grandes problemas de saúde pública no Brasil.

Os medicamentos, principalmente os de venda livre, são os agentes que causam o maior número de intoxicação no Brasil e, há décadas, os números ultrapassam as intoxicações por produtos pesticidas, agrotóxicos e por picada de animais.

Os dados do Sistema Nacional de Informações Tóxico Farmacológicas (Sinitox) repetidamente trazem o medicamento como a principal causa de intoxicação no Brasil, com 30,6% dos casos em 2011. Estes números apontam para o uso inadequado do medicamento, provavelmente oriundos da automedicação.

De acordo com dados de uma pesquisa feita pelo Datafolha e o Instituto de Ciência Tecnologia e Qualidade (2012), Goiânia é segunda capital que mais consome medicamentos sem receita, perdendo apenas para Fortaleza. Este mesmo levantamento concluiu que 83% das pessoas vão a uma farmácia como a um supermercado e que 52% não conseguem identificar o farmacêutico e acabam consumindo o medicamento sem orientações.

Tratar a farmácia e a drogaria como simples comércio tem sido um grande erro e tem contribuído para adoção de práticas mercantilistas inadequadas para a garantia de acesso seguro e qualificado da população a produtos de saúde, dentre eles o medicamento.

Medicamentos não são inócuos. Essa ideia equivocada é transmitida à população por excesso de propagandas, por informações distorcidas e pela transformação das farmácias e drogarias em verdadeiros templos do consumo, que ameaçam a saúde das pessoas o tempo todo.

A população deve ser esclarecida que farmácias não são mercados e que medicamentos são produtos que necessitam de cuidados especiais em sua utilização. Antes de encher a cestinha, o consumidor, que entra em um destes estabelecimentos, tem o direito de conversar com o farmacêutico. E este, na maioria das vezes, é o profissional de saúde mais próximo ou o primeiro com quem a pessoa tem o contato na hora da doença ou do mal-estar.

A prescrição, a dispensação e o uso correto dos medicamentos são fatores essenciais para o êxito do tratamento e pressupõem o acesso ao produto adequado para uma finalidade específica de saúde, em quantidade, tempo e dosagem suficientes, sob a orientação e a supervisão farmacêutica.

Ao transformarem-se em pontos de vendas de medicamentos, as drogarias passaram a contribuir de forma significativa para o quadro caótico que se instalou no país, já exacerbado com a falta de acesso aos serviços de saúde públicos e privados, com a automedicação e a utilização incorreta de medicamentos.

É preciso dar um basta a esta situação e, de fato, adotar atitudes para se reverter esta lógica perversa. Eu acredito que o caminho é transformar a farmácia em estabelecimento de saúde. Não podemos mais permitir que interesses comerciais sobreponham à defesa da saúde pública.

E o farmacêutico tem um papel fundamental nas políticas de orientação, prevenção e recuperação da saúde dos cidadãos. Oriente-se com seu farmacêutico.

(Lorena Baía, presidente do Sindicato dos Farmacêuticos no Estado de Goiás – Sinfargo)

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Clipagem e edição de Marko Ajdaric